失われた ~ Lost


Nada mais tenho com a validez das coisas.
Estou liberta ou perdida.
A vida é mortal.

Clarice Lispector


O tempo foi subvertido naquela janela. Nós dois ali, completos estranhos... E a impressão é de que se passaram séculos por entre a gente. Eu te conheço há milhares de anos e sei absolutamente nada sobre você. O que eu fiz? Eu soltei minhas próprias rédeas. Você veio sorrateiramente e nem sabe que tomou conta de mim. Ou talvez saiba. Não sei.

Amnésia completa. Nossas próprias vidas foram esquecidas. Configuramos uma realidade paralela. Aquela estranha e inesperada felicidade que me invadiu e consumiu meu cansaço, injetou ânimo naquilo que estava morto. A minha prudência fez questão naquela hora de exibi-la apenas desse lado. Mas como ocultá-la em minha face lá fora se ainda está ressonando em minhas veias a euforia deste fado? Quem sabe talvez sob a dor de todas as verdades que o dia trouxe consigo...

O peso da realidade.  Eu continuo completamente só aqui. E você, essa identidade desconhecida... Uma vida inteira recheada de experiências tão distantes das minhas... Por onde anda? No que pensas durante o dia? Quem são as pessoas que fazem ou fizeram parte da tua vida? A pungente dor da ignorância. Agora, a minha companhia.

Eu ainda quero acreditar que está tudo sob controle. Que não estou perdida. Que estou apenas me deixando levar.  Que eu consigo sair. Que posso parar e voltar. E que tudo isso logo vai deixar de existir. Você quis se aproximar, mas eu fui escorregadia. Meus medos são muitos. Mas, estranhamente, a ideia que fiz de ti me dá uma coragem que eu julgava que não tinha.

Queria entender o que está acontecendo, mas ao mesmo tempo... Não quero nem saber. Não sei se finjo também para mim que não me liguei em ti ou se entro nisso pra valer. Você sabe pressionar, mas a verdade não vai ter. É feio mentir, eu sei. E pior que isso é mentir para si mesmo. É que a parte de mim que já cansou de apanhar (da vida) não consegue acreditar que isso (tua investida) é sério. Afinal, é mesmo tão cedo!

Mas como ignorar que fiquei a noite (aliás, começo do dia) pensando nos fragmentos que tenho de ti abraçada ao travesseiro? Pensei e dispensei o pensamento de como seria você, o dia inteiro. Não quero me agarrar a nenhum sentimento próximo do amor e depois ter que me desfazer. Não quero correr o risco de virar mais uma dessas que ama e adora, adora sofrer... Prefiro “morrer” e “nascer de novo” a suportar a dor. A dor da ausência do outro seja como for.  

27

Nenhum comentário:

Postar um comentário

コメントをありがとう! Obrigada pelo comentário!